quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tirei os sapatos e o meu casaco, enquanto assistia Renné dormir sem que qualquer coisa pudesse acordá-lo.
Mal se mexia, e foi difícil conseguir levantá-lo e segurá-lo para chegarmos ao banheiro.
Ele gemia a todo instante, e tive certeza de que ele precisava ao menos vomitar para se livrar do todo aquele mal estar.

- Renné, vem! – Eu passava seu braço esquerdo pelos meus ombros.
- Hum... quero dormir... – Ele mal conseguia se manifestar.
- Renné, você não ta me ajudando! Força, vai... – Eu insistia, caminhando com ele da sala pro banheiro.
- Sophie? Você me aachaa uma bichonaa? – Renné ainda estava sob grande influência do álcool.
- Renné, não diga asneiras! Vai, tira a camisa! – Eu ignorei o que Renné acabara de me dizer, enquanto tirava seu tênis e sua camiseta xadrez.
- Hum, Sophie danadinhaa... quer me ver nu! NÚ! Você nunca me viu nu! Hahaha, o Jorge já...
- Renné! Chega! Me ajuda a tirar sua calça! – Eu tentava manter Renné de pé.

Coloquei Renné embaixo do chuveiro sem que ele sequer pudesse relutar contra.
Baixou a cabeça e deixou que a água caísse, sem sentir o frio.
Desliguei o chuveiro e o enrolei com uma toalha roxa pendurada ali. Coloquei novamente seu braço em volta do meu pescoço e segui com ele para o quarto.

Ele conseguiu forças para dar passos em direção a cama, e em seguida caiu nela sem nem despir a samba-canção molhada que usava.
Pendurei a toalha nos meus ombros e sai em direção ao banheiro, para arrumar toda a bagunça que havia ali.

- Sooophie! – Renné quase não tinha forças pra gritar.

Corri até o quarto.

- O que? Ta bem? – Me assustei, mas quando cheguei lá ele continuava deitado, quase sem se mexer.
- Fica aqui comigo? – Não quero ficar sozinho... – Ele me parecia o típico bêbado carente.
- Tudo bem – Senti uma pontinha de pena.

Deitei ao lado de Renné, tentando empurrá-lo para o outro lado, para que ele me desse espaço.
Ficamos deitados, virados de frente um para o outro.
Pensei nele, em como havíamos sido no passado, em como éramos naquele momento; e acabei me lembrando do Beto. Tirei o celular do bolso da calça e não havia mais nenhuma chamada perdida. Me virei de costas para Renné, e me encolhi, tocando meu calcanhar.
Renné se aproximou e me abraçou.

E tenho que admitir... Fiquei inquieta com Renné me abraçando daquela maneira. Me remeteu uma das sensações mais estranhas e confortáveis que já tive. De tão perplexa, mal pude pegar no sono.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Renné não se manifestou para pagar o taxi. E eu nem me importei, afinal, normalmente Renné calcula o quanto pode e quanto pretende gastar em passeios noturnos.
Até o entendo, afinal, ele trabalhava como Drag Queen no CupsBar todas as quintas-feiras e sábados (como eu já havia mencionado), mas agora mal o escalavam pra fazer os pequenos shows. À primeira vista, o emprego parece ridiculamente humilhante, mas pagava pouco mais de R$ 90 por noite. E Renné realmente gostava do que fazia.


Me esperou sair do táxi e segurou minha mão. Ele tinha o costume de não me deixar atravessar a rua sozinha. Seguimos em direção ao bar.

Ao chegarmos, encontramos mais dois amigos de Renné – Rafa e Gus – que nos cumprimentaram calorosamente com beijos e pequenos risos.
Os vi pouco mais que duas vezes, e ainda assim não conseguia decifrar se a opção sexual de ambos influenciava na amizade com Renné. Nunca pareceram interessados pelo mesmo sexo, mas também não se manifestavam em relação a mulheres.

Escolhemos uma mesa próxima à varanda do tal bar. Era um dos lugares preferidos de Renné.
Iniciamos uma conversa frenética sobre artes plásticas, e no quinto drink já falávamos sobre a política nacional e reclamávamos da nossa falta de dinheiro e de recursos.
Renné mencionou uma piada que mal prestei atenção, e todos riamos como os idiotas que éramos ali naquele bar.
Senti meu celular vibrando e o peguei do bolso.

- Quem é? – Renné falava alto, típico jeito de quem já bebeu demais.
- É o Beto – Eu respondi, e logo me desanimei.
- Não! Não vai se chatear! Não atende essa porcaria... – Renné jogou o celular na minha bolsa entreaberta – Quer sabeeer? Vamos beber maais um drink! Eu paaago! ô garçon!

O rapaz que havia nos servido desde o começo da noite se aproximou. Vestia um avental preto por cima da calça jeans e da camiseta com emblema de The Doors. Pareceu se incomodar com o chamado de Renné.

- É o seguinte...quero mais quatro doses de blue ice com tequila – Renné pediu.
- O que é isso, Renné? – Gus perguntou, e também parecia tonto pelo alcool.
- É tequila com curaçau blue – O garçon se intrometeu.

Todos olhamos pra ele seriamente, e depois caímos novamente no riso.

Renné me puxou pelos cabelos da nuca e sorriu, encostando o rosto no meu pescoço.
Gus e Rafa pareceram brevemente constrangidos, e eu empurrei Renné em tom de brincadeira.

- Acho que já deu nossa hora, certo Renné?
- Ah, qual é?! acabamos de pedir mais um drink, baby – Rafa insistiu.
- Rafa, olha só o estado dele...não vai conseguir caminhar, e eu não tenho forças pra segurá-lo, sabia? – Eu retruquei.
- Podemos levar vocês de carro – Gus sugeriu.
- Isso, e você me faz um café na cama amanhã de manhã...hum – Renné se manifestou, ainda de olhos fechados.
- Ok, só mais uma bebida e vamos embora, tudo bem? – Eu decidi.

Após pagarmos a conta, levamos Renné pendurado em nossos ombros até o carro.
Ele havia bebido pelo menos quatro drinks a mais que todos nós. Veio dormindo no meu colo por todo o trajeto.
Ao chegarmos em frente ao edifício de Renné fiz sinal para que o porteiro deixasse que o carro de Gus parasse no estacionamento.
Eles subiram conosco pelo elevador, e em seguida me ajudaram a colocar Renné no sofá.

- Estamos indo – Rafa se despediu.
- Obrigada meninos, foi uma noite muito divertida.
- Sem problemas, Sophie – Gus acrescentou.
- Hey, não vai fechar a porta? – Rafa olhou para a fechadura.
- É, vou, o Renné é que não tem esse costume – Eu respondi.
- Tudo bem, então vamos? Te deixo em casa. Você fecha a porta com a sua chave e amanhã de manhã ele abre com a dele, né? – Gus fazia questão de me levar até meu apartamento, achava que seria mais seguro se me deixasse na porta de casa.
- Ahn... é... quer saber? Acho melhor dormir aqui essa noite– Respondi meio sem graça, olhando pro sofá onde estava Renné.