quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um Flash, e eu continuei rindo sem graça, o típico riso de quem sabe que não deveria.

-Desculpa – Eu disse, olhando no visor a foto que acabara de tirar.
-Desculpo se desligar isso – Renné retrucou sério enquanto dava às costas ao espelho para me olhar.
- Você sempre reclama – Eu dei de ombros, calma e sorridente.
- Não é por me fotografar, é como faz, prefiro quando me arrumo pra sair, sei lá – Ele respondeu, enquanto passava o pente nos cabelos finos e desarrumados, fitando-se no espelho.
- Mas assim é onde tem graça, gosto de espontaneidade, Renné.
- É, sei bem disso.

Renné foi ficando cada vez mais impaciente, e eu não sabia ao certo se era por causa das fotografias que eu tirara até então.
Penteava o cabelo de um lado para o outro, nunca tendo certeza de que estava bom o bastante para sair.

- Quer me ajudar aqui? - Ele se virou, me olhando com ar de frustração.
- Tudo bem - Eu deu risada.

Ele se virou de frente pra mim, e me deu o pente.

- Olha só, esse lado não fica bom - Ele levantava as mãos e pontava o redemuínho que tinha do lado esquerdo dos cabelos.
- Espera só, que vou dar um jeito nisso!
- Queria que ficasse como na noite em que conheci o Jorge.
- É, você tava bonito mesmo - Fitava os cabelos de Renné sem olhar pros olhos dele.

Molhei minhas mãos e salpiquei um pouco mais de creme entre meus dedos. Burrifei mais um pouco de laquê nos cabelos de Renné, e acabei deixando que um pouco do produto escapasse direto pros seus olhos.

- Ai! isso arde, Sophie! - Eu gritou, fechando os olhos rapidamente e os esfregando pra se livrar da ardência.
- Me desculpa! não foi de propósito - Eu me senti ligeiramente culpada.
- Droga, meus olhos vão ficar inchados agora... - Renné tentava abri-los devagar.
- Calma, já vai passar. Comecei a soprar o rosto de Renné pra que ele sentisse um pouco de alívio.

Eu soprava devagar, e ele não parecia mais tão irritado com o meu pequeno desastre.
Passou a me fitar, olhar em volta do meu rosto, notar o contorno das minhas sombrancelhas e até o brilho que eu tinha nos lábios.
Ignorei. Até perceber que ele me olhava demais. Chegava a ficar até um tanto estático.

- O que foi? - Perguntei como quem não quer nada.
- Nada. Estava olhando seu delineador colorido... - Ele respondeu tranquilamente, e eu percebi que foi tolice minha perguntar - Você me empresta? quando eu me vestir de Susi! - Ele sorriu.

[Susi é a personagem que Renné criou. Na verdade é chamado assim quando trabalha de Drag Queen no CupsBar]

- Tudo bem - Respondi séria - Pronto, tá lindo. Podemos ir agora? - Eu joguei o pente na cabeceira da cama e me virei pra pegar minha bolsa.
- Ficou ótimo! Só você mesmo...

Saimos sem trancar a porta, descemos até o hall e chamamos um taxi.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O porteiro não me anunciou. Na verdade, ele nunca me anuncia. Passei direto pelo hall do edifício e segui até o elevador. Minha semiclaustrofobia não se manifestou como normalmente ocorreria em situações como essa.
Entrei sem bater. Como de costume, ele não havia trancado a porta.
Me deparei com barulhos estranhos vindos da cozinha, e nada mais eram que os dois gatos de Renné (Zé, e Tina) farreando num pequeno monte de ração espalhado ali.
Joguei minha bolsa na cadeira da sala de jantar, e cai no sofá. Eu estava completamente só.

Escutei barulhos de chave algumas horas mais tarde. A porta se abrindo e fechando em seguida, lentamente.
Estava absolutamente exausta e não consegui abrir os meus olhos completamente para ver quem era.
Renné se ajoelhou ao lado do sofá em que eu estava, e começou a me fitar sorrindo.

- Que surpresa, bebê.
- Pois é, eu peguei no sono – Respondi com a voz fraca e sonolenta.

Me chamar de bebê poderia significar apenas duas coisas: ou ele estava absurdamente feliz por me ver, especialmente por estar carente de mim e com isso não ter que necessariamente me procurar; ou sua ‘’pseudo-relação’’ com Jorge estava perfeitamente estável.

- Tudo bem. Você comeu? Tem frios na geladeira – Ele disse enquanto se levantava e ia em direção à cozinha.
- Não – Respondi levantando rapidamente, e dando assim condições para que minha tontura se manifestasse.

Ele pegou uma xícara de chá gelado com sabor de pêssego e despejou um tanto de wisky.

- O que houve? – Perguntou enquanto se sentava ao meu lado e golava um pouco da bebida.
- Eu e o Beto brigamos. Acho que terminamos.
- Acha? – Perguntou ele, com um sorriso levemente irônico.
- É porque ainda não tenho certeza. A última coisa que eu disse à ele antes de ir embora foi que ele não passava de um safado mentiroso – Eu respondi, tentando me recordar mais claramente.

Renné levantou uma das sombrancelhas, e me estendeu a mão com a xícara de chá e wisky.

- Me conte desde o início – Ele me pediu, cruzando os braços e mudando suas feições em expressões sérias.
- Acho que ele tem um caso - Eu dei um gole demorado.
- Um caso? – Perguntou ele, confuso.

Renné sabia o quão Beto era apaixonado por mim, apesar de nossas inúmeras diferenças. Era um rapaz ciumento e ligeiramente inseguro, apesar de ser realmente bonito e trabalhar como fotógrafo.

- É, acho que ele tem um caso com uma das modelos. Uma tal de Rebeca – Eu expliquei – Vi algumas mensagens chegarem no celular dele, enquanto ele estava no banho.
- Típica curiosidade feminina – Disse Renné em tom de brincadeira.
- Infelizmente.
- Você perguntou a ele? Ou simplesmente deu um pití e descarregou tudo nas costas do coitado? – Ele me perguntou, sorrindo.
- Ele não soube ao certo me explicar! – Comecei a mudar meu tom, especialmente porque senti que Renné o estava defendendo.

Senti meu celular vibrar no bolso do lado direito da minha calça. Me inclinei para o lado e o peguei com a mãe que estava livre da xícara.

- É ele, me mandou uma mensagem – Eu disse, desanimada – Ele quer que eu vá hoje no estúdio. Pede pra que nós conversemos, mas eu não quero, pelo menos não agora.
- Entendo... – Renné já não sabia o que devia me dizer – Quer sair hoje à noite? Vamos no bar, jogar uma sinuca, sei lá...
- Não sei se tem clima pra mim.
- Ah vá, eu sei que você precisa espairecer um pouquinho – Ele insistiu, sorrindo.

Odeio quando ele usa o sorriso como arma.

sábado, 15 de outubro de 2011

Cheguei em casa tentando equilibrar as sacolas de plástico cheias de mantimentos para a próxima semana.
Beto editava suas fotos no computador, enquanto eu guardava item por item das compras, na cozinha.

- Como foi? Estava lotado? – Ele perguntou enquanto se prendia por trás de mim e me dava um beijo rápido no pescoço.
- Típico de um feriado – Eu respondi sorrindo.
- Vou tomar um banho, você vem junto? – Passou as mãos pelo meu quadril, enquanto eu guardava o vidro de tomate no armário acima da minha cabeça.
- Não...preciso terminar de guardar as compras. E depois disso vou reformular uma das histórias e mandar pra Beth.

[Beth é a minha atual editora. Tenho um pequeno contrato com uma editora medíocre que ganha 70% dos livros que eu publico. Mas, aparentemente, isso é o suficiente pra me pagar minhas contas, juntamente com o salário que recebo na livraria onde trabalho seis vezes na semana].

- Tudo bem, gatinha – Ele não insistiu, e se afastou sorrindo.

O sorriso do Beto é ligeiramente carinhoso, mas muito malicioso.
Pelas minhas contas, estamos juntos há mais ou menos dois anos. Talvez dois anos e um mês....talvez um mês e meio.
Nos conhecemos quando viajei pra cidade natal de minha mãe, em Merseille.
Ele era um dos poucos brasileiros que encontrei na minha estadia lá por três meses. A viagem foi logo após eu e Renné termos terminado nosso breve namoro de seis meses.

Lembrei de tudo isso enquanto colocava o leite na geladeira. Gosto de pensar com a geladeira aberta, não me pergunte exatamente o por quê.

Fui seguindo em direção ao nosso quarto, tirei meu tênis rapidamente e deitei na cama. Escutei o celular de Beto vibrar mais de uma vez.
Sei que não deveria, mas mesmo me segurando muito, não consegui conter minha curiosidade e peguei o celular.
Quando tentei me controlar já era tarde. Senti todas as minhas veias pulsando bem forte, e o meu rosto ficando rosado de nervosismo. Lia e não conseguia crer que ele recebesse mensagens como aquelas.

Beto saiu do banheiro somente com uma toalha verde enrolada em sua cintura.
Secava os cabelos castanhos bem escuros com uma outra toalha de rosto.
Sorriu ingenuamente, e me fitou. Eu estava séria, olhando pra tv sem sequer notá-lo.

- Hey, o que ta vendo de bom? – Ele perguntou, parecendo interessado.
- Canal de compras – Eu respondi, seca, ainda sem olhá-lo.
- Desde quando você se interessa por isso? – Ele riu.
- O que são essas mensagens no seu celular?– Eu perguntei, ainda séria e sem fitá-lo, estendendo a mão para que ele pegasse o celular.
- O quê? – Ele pareceu confuso.
- Não me faça de boba, Alberto – Eu olhei séria pra ele, aumentando meu tom de voz.
- O que...mas, eu... – Ele tentava me responder enquanto lia as mensagens.
- Olha, eu não sou idiota, ta bem? Não vou ficar parada esperando que você me faça de uma! – Eu aumentava cada vez mais meu tom.
- Você não sabe o que ta dizendo, ela é só uma modelo... – Ele tentava se justificar, mas eu já não escutava nada.
- Então, ‘’gatinho gostoso’’, você vai querer ‘’repetir a dose da semana passada’’?
- Espera, eu vou explicar... – Ele não sabia o que me dizer, e isso me deixou ainda mais irritada.

Levantei da cama e comecei a calçar meu tênis. Ele passou o tempo todo me assistindo amarrar os cadarços sem olhá-lo.
- Espera, vamos conversa... – Ele insistia, mesmo sabendo que seria inútil.

Passei pela sala e peguei minha bolsa. Antes que eu pudesse abrir a porta ele segurou meu braço com força.

- Aonde você vai? – Ele perguntou, exaltado.
- Vou sair daqui! – Eu gritei.
- Sair? Vai pra onde? Essa é a sua casa. Se alguém tem que sair, que seja eu! – Ele me soltou e foi caminhando em direção ao quarto.
- Então espero que não esteja mais aqui quando eu voltar! – Eu continuava com a voz alterada.
- Ok, não quero mais saber também! – Pude ouvir ele gritar.
- Sai da minha casa e vai com aquela piranha! Isso, sai da minha casa e da minha vida! Você não passa de um safado mentiroso! – Eu gritei, antes de bater a porta e ir embora.

sábado, 8 de outubro de 2011

- Qual desses você prefere? Violeta ou turquesa?
Desviei meus olhos do livro que tinha em mãos e o fitei rapidamente.
- Turquesa. – Eu respondi serena, enquanto voltava a ler meu livro.

Quando é que eu poderia imaginar minha vida assim?
Aqui estou eu, sentada, vestida apenas com calcinha e uma camiseta ridiculamente grande que ele me emprestou pra que eu não continuasse usando as roupas molhadas pela chuva que caiu há meia-hora atrás.
Às vezes, quando ele pensa que não estou olhando, eu coloco o livro na frente do rosto e o analiso de longe.
Ele, que foi meu primeiro amor ''de verdade'', o cara mais misterioso que já pude conhecer em todos os meus breves e medíocres vinte e um anos. Enquanto o vejo passar com cuidado o delineador pelas pálpebras dos olhos, me recordo das inúmeras vezes em que nos beijamos e nos agarramos, numa vontade estranha de sermos um do outro.
Agora, ele era só o meu melhor amigo. Ex-namorado e melhor amigo; trabalhava às noites de quinta e sábado como drag queen e eu o ajudava a escolher a cor do colãn que usaria por baixo da saia cintilante.

- Se a chuva não passar, você pode dormir aqui.
- Mas, e o Jorge? Vocês não virão pra cá hoje depois do seu expediente? – Eu perguntei, despreocupada, sem nem ao menos olhá-lo.

[Jorge: Renné o conheceu no bar em que atualmente trabalha. Jorge era o tipo de rapaz que Renné sempre admirou e que sempre o instigou. O típico heterossexual que esconde uma pontinha de homossexualidade e leva a situação do jeito mais divertido possível].

- Não, hoje vamos para a casa dele. Me chamou pra ouvir umas composições novas que ele fez na última semana.

Composições novas. Renné não aprendeu que não precisa mentir pra mim sobre o que realmente vai acontecer hoje de madrugada. Ele insiste em ter vergonha de me contar coisas sobre eles dois, mas eu sei que hoje vai acontecer qualquer sacanagem que seja (não que isso implique necessariamente em sexo).

- Sei... – Respondi, e ele percebeu meu tom irônico.
- Eu fiz compras ontem, pode jantar algum congelado se quiser. O forno voltou a funcionar – Ele disse, se gabando e querendo parecer um pouco mais responsável.

Na verdade, Renné não era nada organizado. Era o tipo de cara que adora cozinhar, mas odeia lavar a louça. Morava sozinho desde seus 17 anos. O apartamento foi um legado da própria mãe, que se divorciou do pai e foi morar no Sul com a irmã e a sobrinha.
Depositou dinheiro na conta de Renné até ele fazer 19 anos e conseguir seu primeiro emprego.

- Não, obrigada. O Beto vem me buscar mais tarde – Eu respondi em tom de agradecimento.
- Se resolveram? – Ele me perguntou enquanto colocava um de seus brincos.
- A gente sempre se resolve. Mas, é que...

… o celular começou a tocar a música preferida de Renné.

- Ok, sim, já estou saindo – Respondeu ele ao celular enquanto colocava o outro sapato de salto.

- Sophie, meu bem, depois você me conta. Já estou atrasado.
- Tudo bem - Eu dei de ombros.
Por muito tempo eu me perguntei qual seria a utilidade de me expressar através de um blog.
Sempre fugi de paradigmas tão banais quanto esses. Usar um blog para nada mais que sustentar um alter ego. Mas não vejo mais razão de deixar histórias como as que vou postar aqui, presas somente nos arquivos esquecidos do meu notbook.


Façamos então um breve resumo. Resumo este que coloco aqui ao invés de no tópico: ''Quem sou eu'', até porque, você leitor, não vai ter a menor paciência de ler uma definição como uma que talvez possua mais de três linhas, acredito.
E convenhamos, auto descrição é óbviamente o ápice do egocentrismo, pouco importa se vai julgar-se bem ou mal, bom ou ruim.


Então, cá está tudo o que você leitor, precisa saber sobre mim:


Meu nome é Sophie, mais especificamente: Sophie Adale de Acácio.
Minha mãe nasceu em Marseille, no ano de 1958, e veio pro país em meados de 1960, embora isso não faça a menor diferença pra você, leitor.
Tenho 21 anos atualmente. Não sou casada,  não tenho filhos e nem previsão de quando esse dado sobre mim mudará.
Moro em São Paulo.


Por hora, isso é tudo que você precisar saber sobre mim.


Atenciosamente,