quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Logo que o radio relógio despertou, me levantei e cambaleei até a cozinha.
A claridade do apartamento de Renné sempre me faz arder os olhos, especialmente em um dia de calor propício como aquele estava parecendo que seria.
Abri a geladeira e notei que nela não havia muito além de meio litro de leite, e alguns congelados.
Calcei meu tênis e vesti meu casaco. Me limitei a arrumar somente as coisas que eu mesma havia tirado do lugar. Deixei o resto por conta de Renné, quase como um castigo, mesmo sabendo que ele não se importava tanto com a limpeza de seu próprio apartamento.
Voltei ao quarto e tentei me despedir.

- Renné, estou indo.

Deitado de bruços, tudo o que eu pude ouvir foram gemidos leves e sussurros providos de algum sonho que ele estaria tendo.

- Renné... me ouviu? Eu disse que estou indo – Eu insisti. Sem resultados.

Desisti de tentar acordá-lo. Segui até o corredor e peguei um bloquinho de papéis amarelos que encontrei ao lado do telefone sem fio. Busquei uma caneta na minha bolsa, no sofá ao lado, e pensei em algo breve pra justificar minha ausência.

‘’Tentei te acordar, mas não consegui. As tequilas te fizeram um estrago grande de ontem pra hoje. Vou resolver alguns assuntos no centro, sabe como é...  última semana de férias do trabalho, então tenho que aproveitar o tempo livre. Te ligo amanhã’’.

Pendurei o bilhete na fechadura da porta da sala, com durex. Pelo menos ali, eu sabia que Renné o acharia.
Desci até o hall do prédio, e como de costume, o porteiro acenou da janela de vidro da guarita.  Retribuí o aceno e segui até a avenida principal, pra pegar um ônibus.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tirei os sapatos e o meu casaco, enquanto assistia Renné dormir sem que qualquer coisa pudesse acordá-lo.
Mal se mexia, e foi difícil conseguir levantá-lo e segurá-lo para chegarmos ao banheiro.
Ele gemia a todo instante, e tive certeza de que ele precisava ao menos vomitar para se livrar do todo aquele mal estar.

- Renné, vem! – Eu passava seu braço esquerdo pelos meus ombros.
- Hum... quero dormir... – Ele mal conseguia se manifestar.
- Renné, você não ta me ajudando! Força, vai... – Eu insistia, caminhando com ele da sala pro banheiro.
- Sophie? Você me aachaa uma bichonaa? – Renné ainda estava sob grande influência do álcool.
- Renné, não diga asneiras! Vai, tira a camisa! – Eu ignorei o que Renné acabara de me dizer, enquanto tirava seu tênis e sua camiseta xadrez.
- Hum, Sophie danadinhaa... quer me ver nu! NÚ! Você nunca me viu nu! Hahaha, o Jorge já...
- Renné! Chega! Me ajuda a tirar sua calça! – Eu tentava manter Renné de pé.

Coloquei Renné embaixo do chuveiro sem que ele sequer pudesse relutar contra.
Baixou a cabeça e deixou que a água caísse, sem sentir o frio.
Desliguei o chuveiro e o enrolei com uma toalha roxa pendurada ali. Coloquei novamente seu braço em volta do meu pescoço e segui com ele para o quarto.

Ele conseguiu forças para dar passos em direção a cama, e em seguida caiu nela sem nem despir a samba-canção molhada que usava.
Pendurei a toalha nos meus ombros e sai em direção ao banheiro, para arrumar toda a bagunça que havia ali.

- Sooophie! – Renné quase não tinha forças pra gritar.

Corri até o quarto.

- O que? Ta bem? – Me assustei, mas quando cheguei lá ele continuava deitado, quase sem se mexer.
- Fica aqui comigo? – Não quero ficar sozinho... – Ele me parecia o típico bêbado carente.
- Tudo bem – Senti uma pontinha de pena.

Deitei ao lado de Renné, tentando empurrá-lo para o outro lado, para que ele me desse espaço.
Ficamos deitados, virados de frente um para o outro.
Pensei nele, em como havíamos sido no passado, em como éramos naquele momento; e acabei me lembrando do Beto. Tirei o celular do bolso da calça e não havia mais nenhuma chamada perdida. Me virei de costas para Renné, e me encolhi, tocando meu calcanhar.
Renné se aproximou e me abraçou.

E tenho que admitir... Fiquei inquieta com Renné me abraçando daquela maneira. Me remeteu uma das sensações mais estranhas e confortáveis que já tive. De tão perplexa, mal pude pegar no sono.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Renné não se manifestou para pagar o taxi. E eu nem me importei, afinal, normalmente Renné calcula o quanto pode e quanto pretende gastar em passeios noturnos.
Até o entendo, afinal, ele trabalhava como Drag Queen no CupsBar todas as quintas-feiras e sábados (como eu já havia mencionado), mas agora mal o escalavam pra fazer os pequenos shows. À primeira vista, o emprego parece ridiculamente humilhante, mas pagava pouco mais de R$ 90 por noite. E Renné realmente gostava do que fazia.


Me esperou sair do táxi e segurou minha mão. Ele tinha o costume de não me deixar atravessar a rua sozinha. Seguimos em direção ao bar.

Ao chegarmos, encontramos mais dois amigos de Renné – Rafa e Gus – que nos cumprimentaram calorosamente com beijos e pequenos risos.
Os vi pouco mais que duas vezes, e ainda assim não conseguia decifrar se a opção sexual de ambos influenciava na amizade com Renné. Nunca pareceram interessados pelo mesmo sexo, mas também não se manifestavam em relação a mulheres.

Escolhemos uma mesa próxima à varanda do tal bar. Era um dos lugares preferidos de Renné.
Iniciamos uma conversa frenética sobre artes plásticas, e no quinto drink já falávamos sobre a política nacional e reclamávamos da nossa falta de dinheiro e de recursos.
Renné mencionou uma piada que mal prestei atenção, e todos riamos como os idiotas que éramos ali naquele bar.
Senti meu celular vibrando e o peguei do bolso.

- Quem é? – Renné falava alto, típico jeito de quem já bebeu demais.
- É o Beto – Eu respondi, e logo me desanimei.
- Não! Não vai se chatear! Não atende essa porcaria... – Renné jogou o celular na minha bolsa entreaberta – Quer sabeeer? Vamos beber maais um drink! Eu paaago! ô garçon!

O rapaz que havia nos servido desde o começo da noite se aproximou. Vestia um avental preto por cima da calça jeans e da camiseta com emblema de The Doors. Pareceu se incomodar com o chamado de Renné.

- É o seguinte...quero mais quatro doses de blue ice com tequila – Renné pediu.
- O que é isso, Renné? – Gus perguntou, e também parecia tonto pelo alcool.
- É tequila com curaçau blue – O garçon se intrometeu.

Todos olhamos pra ele seriamente, e depois caímos novamente no riso.

Renné me puxou pelos cabelos da nuca e sorriu, encostando o rosto no meu pescoço.
Gus e Rafa pareceram brevemente constrangidos, e eu empurrei Renné em tom de brincadeira.

- Acho que já deu nossa hora, certo Renné?
- Ah, qual é?! acabamos de pedir mais um drink, baby – Rafa insistiu.
- Rafa, olha só o estado dele...não vai conseguir caminhar, e eu não tenho forças pra segurá-lo, sabia? – Eu retruquei.
- Podemos levar vocês de carro – Gus sugeriu.
- Isso, e você me faz um café na cama amanhã de manhã...hum – Renné se manifestou, ainda de olhos fechados.
- Ok, só mais uma bebida e vamos embora, tudo bem? – Eu decidi.

Após pagarmos a conta, levamos Renné pendurado em nossos ombros até o carro.
Ele havia bebido pelo menos quatro drinks a mais que todos nós. Veio dormindo no meu colo por todo o trajeto.
Ao chegarmos em frente ao edifício de Renné fiz sinal para que o porteiro deixasse que o carro de Gus parasse no estacionamento.
Eles subiram conosco pelo elevador, e em seguida me ajudaram a colocar Renné no sofá.

- Estamos indo – Rafa se despediu.
- Obrigada meninos, foi uma noite muito divertida.
- Sem problemas, Sophie – Gus acrescentou.
- Hey, não vai fechar a porta? – Rafa olhou para a fechadura.
- É, vou, o Renné é que não tem esse costume – Eu respondi.
- Tudo bem, então vamos? Te deixo em casa. Você fecha a porta com a sua chave e amanhã de manhã ele abre com a dele, né? – Gus fazia questão de me levar até meu apartamento, achava que seria mais seguro se me deixasse na porta de casa.
- Ahn... é... quer saber? Acho melhor dormir aqui essa noite– Respondi meio sem graça, olhando pro sofá onde estava Renné.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um Flash, e eu continuei rindo sem graça, o típico riso de quem sabe que não deveria.

-Desculpa – Eu disse, olhando no visor a foto que acabara de tirar.
-Desculpo se desligar isso – Renné retrucou sério enquanto dava às costas ao espelho para me olhar.
- Você sempre reclama – Eu dei de ombros, calma e sorridente.
- Não é por me fotografar, é como faz, prefiro quando me arrumo pra sair, sei lá – Ele respondeu, enquanto passava o pente nos cabelos finos e desarrumados, fitando-se no espelho.
- Mas assim é onde tem graça, gosto de espontaneidade, Renné.
- É, sei bem disso.

Renné foi ficando cada vez mais impaciente, e eu não sabia ao certo se era por causa das fotografias que eu tirara até então.
Penteava o cabelo de um lado para o outro, nunca tendo certeza de que estava bom o bastante para sair.

- Quer me ajudar aqui? - Ele se virou, me olhando com ar de frustração.
- Tudo bem - Eu deu risada.

Ele se virou de frente pra mim, e me deu o pente.

- Olha só, esse lado não fica bom - Ele levantava as mãos e pontava o redemuínho que tinha do lado esquerdo dos cabelos.
- Espera só, que vou dar um jeito nisso!
- Queria que ficasse como na noite em que conheci o Jorge.
- É, você tava bonito mesmo - Fitava os cabelos de Renné sem olhar pros olhos dele.

Molhei minhas mãos e salpiquei um pouco mais de creme entre meus dedos. Burrifei mais um pouco de laquê nos cabelos de Renné, e acabei deixando que um pouco do produto escapasse direto pros seus olhos.

- Ai! isso arde, Sophie! - Eu gritou, fechando os olhos rapidamente e os esfregando pra se livrar da ardência.
- Me desculpa! não foi de propósito - Eu me senti ligeiramente culpada.
- Droga, meus olhos vão ficar inchados agora... - Renné tentava abri-los devagar.
- Calma, já vai passar. Comecei a soprar o rosto de Renné pra que ele sentisse um pouco de alívio.

Eu soprava devagar, e ele não parecia mais tão irritado com o meu pequeno desastre.
Passou a me fitar, olhar em volta do meu rosto, notar o contorno das minhas sombrancelhas e até o brilho que eu tinha nos lábios.
Ignorei. Até perceber que ele me olhava demais. Chegava a ficar até um tanto estático.

- O que foi? - Perguntei como quem não quer nada.
- Nada. Estava olhando seu delineador colorido... - Ele respondeu tranquilamente, e eu percebi que foi tolice minha perguntar - Você me empresta? quando eu me vestir de Susi! - Ele sorriu.

[Susi é a personagem que Renné criou. Na verdade é chamado assim quando trabalha de Drag Queen no CupsBar]

- Tudo bem - Respondi séria - Pronto, tá lindo. Podemos ir agora? - Eu joguei o pente na cabeceira da cama e me virei pra pegar minha bolsa.
- Ficou ótimo! Só você mesmo...

Saimos sem trancar a porta, descemos até o hall e chamamos um taxi.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O porteiro não me anunciou. Na verdade, ele nunca me anuncia. Passei direto pelo hall do edifício e segui até o elevador. Minha semiclaustrofobia não se manifestou como normalmente ocorreria em situações como essa.
Entrei sem bater. Como de costume, ele não havia trancado a porta.
Me deparei com barulhos estranhos vindos da cozinha, e nada mais eram que os dois gatos de Renné (Zé, e Tina) farreando num pequeno monte de ração espalhado ali.
Joguei minha bolsa na cadeira da sala de jantar, e cai no sofá. Eu estava completamente só.

Escutei barulhos de chave algumas horas mais tarde. A porta se abrindo e fechando em seguida, lentamente.
Estava absolutamente exausta e não consegui abrir os meus olhos completamente para ver quem era.
Renné se ajoelhou ao lado do sofá em que eu estava, e começou a me fitar sorrindo.

- Que surpresa, bebê.
- Pois é, eu peguei no sono – Respondi com a voz fraca e sonolenta.

Me chamar de bebê poderia significar apenas duas coisas: ou ele estava absurdamente feliz por me ver, especialmente por estar carente de mim e com isso não ter que necessariamente me procurar; ou sua ‘’pseudo-relação’’ com Jorge estava perfeitamente estável.

- Tudo bem. Você comeu? Tem frios na geladeira – Ele disse enquanto se levantava e ia em direção à cozinha.
- Não – Respondi levantando rapidamente, e dando assim condições para que minha tontura se manifestasse.

Ele pegou uma xícara de chá gelado com sabor de pêssego e despejou um tanto de wisky.

- O que houve? – Perguntou enquanto se sentava ao meu lado e golava um pouco da bebida.
- Eu e o Beto brigamos. Acho que terminamos.
- Acha? – Perguntou ele, com um sorriso levemente irônico.
- É porque ainda não tenho certeza. A última coisa que eu disse à ele antes de ir embora foi que ele não passava de um safado mentiroso – Eu respondi, tentando me recordar mais claramente.

Renné levantou uma das sombrancelhas, e me estendeu a mão com a xícara de chá e wisky.

- Me conte desde o início – Ele me pediu, cruzando os braços e mudando suas feições em expressões sérias.
- Acho que ele tem um caso - Eu dei um gole demorado.
- Um caso? – Perguntou ele, confuso.

Renné sabia o quão Beto era apaixonado por mim, apesar de nossas inúmeras diferenças. Era um rapaz ciumento e ligeiramente inseguro, apesar de ser realmente bonito e trabalhar como fotógrafo.

- É, acho que ele tem um caso com uma das modelos. Uma tal de Rebeca – Eu expliquei – Vi algumas mensagens chegarem no celular dele, enquanto ele estava no banho.
- Típica curiosidade feminina – Disse Renné em tom de brincadeira.
- Infelizmente.
- Você perguntou a ele? Ou simplesmente deu um pití e descarregou tudo nas costas do coitado? – Ele me perguntou, sorrindo.
- Ele não soube ao certo me explicar! – Comecei a mudar meu tom, especialmente porque senti que Renné o estava defendendo.

Senti meu celular vibrar no bolso do lado direito da minha calça. Me inclinei para o lado e o peguei com a mãe que estava livre da xícara.

- É ele, me mandou uma mensagem – Eu disse, desanimada – Ele quer que eu vá hoje no estúdio. Pede pra que nós conversemos, mas eu não quero, pelo menos não agora.
- Entendo... – Renné já não sabia o que devia me dizer – Quer sair hoje à noite? Vamos no bar, jogar uma sinuca, sei lá...
- Não sei se tem clima pra mim.
- Ah vá, eu sei que você precisa espairecer um pouquinho – Ele insistiu, sorrindo.

Odeio quando ele usa o sorriso como arma.

sábado, 15 de outubro de 2011

Cheguei em casa tentando equilibrar as sacolas de plástico cheias de mantimentos para a próxima semana.
Beto editava suas fotos no computador, enquanto eu guardava item por item das compras, na cozinha.

- Como foi? Estava lotado? – Ele perguntou enquanto se prendia por trás de mim e me dava um beijo rápido no pescoço.
- Típico de um feriado – Eu respondi sorrindo.
- Vou tomar um banho, você vem junto? – Passou as mãos pelo meu quadril, enquanto eu guardava o vidro de tomate no armário acima da minha cabeça.
- Não...preciso terminar de guardar as compras. E depois disso vou reformular uma das histórias e mandar pra Beth.

[Beth é a minha atual editora. Tenho um pequeno contrato com uma editora medíocre que ganha 70% dos livros que eu publico. Mas, aparentemente, isso é o suficiente pra me pagar minhas contas, juntamente com o salário que recebo na livraria onde trabalho seis vezes na semana].

- Tudo bem, gatinha – Ele não insistiu, e se afastou sorrindo.

O sorriso do Beto é ligeiramente carinhoso, mas muito malicioso.
Pelas minhas contas, estamos juntos há mais ou menos dois anos. Talvez dois anos e um mês....talvez um mês e meio.
Nos conhecemos quando viajei pra cidade natal de minha mãe, em Merseille.
Ele era um dos poucos brasileiros que encontrei na minha estadia lá por três meses. A viagem foi logo após eu e Renné termos terminado nosso breve namoro de seis meses.

Lembrei de tudo isso enquanto colocava o leite na geladeira. Gosto de pensar com a geladeira aberta, não me pergunte exatamente o por quê.

Fui seguindo em direção ao nosso quarto, tirei meu tênis rapidamente e deitei na cama. Escutei o celular de Beto vibrar mais de uma vez.
Sei que não deveria, mas mesmo me segurando muito, não consegui conter minha curiosidade e peguei o celular.
Quando tentei me controlar já era tarde. Senti todas as minhas veias pulsando bem forte, e o meu rosto ficando rosado de nervosismo. Lia e não conseguia crer que ele recebesse mensagens como aquelas.

Beto saiu do banheiro somente com uma toalha verde enrolada em sua cintura.
Secava os cabelos castanhos bem escuros com uma outra toalha de rosto.
Sorriu ingenuamente, e me fitou. Eu estava séria, olhando pra tv sem sequer notá-lo.

- Hey, o que ta vendo de bom? – Ele perguntou, parecendo interessado.
- Canal de compras – Eu respondi, seca, ainda sem olhá-lo.
- Desde quando você se interessa por isso? – Ele riu.
- O que são essas mensagens no seu celular?– Eu perguntei, ainda séria e sem fitá-lo, estendendo a mão para que ele pegasse o celular.
- O quê? – Ele pareceu confuso.
- Não me faça de boba, Alberto – Eu olhei séria pra ele, aumentando meu tom de voz.
- O que...mas, eu... – Ele tentava me responder enquanto lia as mensagens.
- Olha, eu não sou idiota, ta bem? Não vou ficar parada esperando que você me faça de uma! – Eu aumentava cada vez mais meu tom.
- Você não sabe o que ta dizendo, ela é só uma modelo... – Ele tentava se justificar, mas eu já não escutava nada.
- Então, ‘’gatinho gostoso’’, você vai querer ‘’repetir a dose da semana passada’’?
- Espera, eu vou explicar... – Ele não sabia o que me dizer, e isso me deixou ainda mais irritada.

Levantei da cama e comecei a calçar meu tênis. Ele passou o tempo todo me assistindo amarrar os cadarços sem olhá-lo.
- Espera, vamos conversa... – Ele insistia, mesmo sabendo que seria inútil.

Passei pela sala e peguei minha bolsa. Antes que eu pudesse abrir a porta ele segurou meu braço com força.

- Aonde você vai? – Ele perguntou, exaltado.
- Vou sair daqui! – Eu gritei.
- Sair? Vai pra onde? Essa é a sua casa. Se alguém tem que sair, que seja eu! – Ele me soltou e foi caminhando em direção ao quarto.
- Então espero que não esteja mais aqui quando eu voltar! – Eu continuava com a voz alterada.
- Ok, não quero mais saber também! – Pude ouvir ele gritar.
- Sai da minha casa e vai com aquela piranha! Isso, sai da minha casa e da minha vida! Você não passa de um safado mentiroso! – Eu gritei, antes de bater a porta e ir embora.

sábado, 8 de outubro de 2011

- Qual desses você prefere? Violeta ou turquesa?
Desviei meus olhos do livro que tinha em mãos e o fitei rapidamente.
- Turquesa. – Eu respondi serena, enquanto voltava a ler meu livro.

Quando é que eu poderia imaginar minha vida assim?
Aqui estou eu, sentada, vestida apenas com calcinha e uma camiseta ridiculamente grande que ele me emprestou pra que eu não continuasse usando as roupas molhadas pela chuva que caiu há meia-hora atrás.
Às vezes, quando ele pensa que não estou olhando, eu coloco o livro na frente do rosto e o analiso de longe.
Ele, que foi meu primeiro amor ''de verdade'', o cara mais misterioso que já pude conhecer em todos os meus breves e medíocres vinte e um anos. Enquanto o vejo passar com cuidado o delineador pelas pálpebras dos olhos, me recordo das inúmeras vezes em que nos beijamos e nos agarramos, numa vontade estranha de sermos um do outro.
Agora, ele era só o meu melhor amigo. Ex-namorado e melhor amigo; trabalhava às noites de quinta e sábado como drag queen e eu o ajudava a escolher a cor do colãn que usaria por baixo da saia cintilante.

- Se a chuva não passar, você pode dormir aqui.
- Mas, e o Jorge? Vocês não virão pra cá hoje depois do seu expediente? – Eu perguntei, despreocupada, sem nem ao menos olhá-lo.

[Jorge: Renné o conheceu no bar em que atualmente trabalha. Jorge era o tipo de rapaz que Renné sempre admirou e que sempre o instigou. O típico heterossexual que esconde uma pontinha de homossexualidade e leva a situação do jeito mais divertido possível].

- Não, hoje vamos para a casa dele. Me chamou pra ouvir umas composições novas que ele fez na última semana.

Composições novas. Renné não aprendeu que não precisa mentir pra mim sobre o que realmente vai acontecer hoje de madrugada. Ele insiste em ter vergonha de me contar coisas sobre eles dois, mas eu sei que hoje vai acontecer qualquer sacanagem que seja (não que isso implique necessariamente em sexo).

- Sei... – Respondi, e ele percebeu meu tom irônico.
- Eu fiz compras ontem, pode jantar algum congelado se quiser. O forno voltou a funcionar – Ele disse, se gabando e querendo parecer um pouco mais responsável.

Na verdade, Renné não era nada organizado. Era o tipo de cara que adora cozinhar, mas odeia lavar a louça. Morava sozinho desde seus 17 anos. O apartamento foi um legado da própria mãe, que se divorciou do pai e foi morar no Sul com a irmã e a sobrinha.
Depositou dinheiro na conta de Renné até ele fazer 19 anos e conseguir seu primeiro emprego.

- Não, obrigada. O Beto vem me buscar mais tarde – Eu respondi em tom de agradecimento.
- Se resolveram? – Ele me perguntou enquanto colocava um de seus brincos.
- A gente sempre se resolve. Mas, é que...

… o celular começou a tocar a música preferida de Renné.

- Ok, sim, já estou saindo – Respondeu ele ao celular enquanto colocava o outro sapato de salto.

- Sophie, meu bem, depois você me conta. Já estou atrasado.
- Tudo bem - Eu dei de ombros.