Cheguei em casa tentando equilibrar as sacolas de plástico cheias de mantimentos para a próxima semana.
Beto editava suas fotos no computador, enquanto eu guardava item por item das compras, na cozinha.
- Como foi? Estava lotado? – Ele perguntou enquanto se prendia por trás de mim e me dava um beijo rápido no pescoço.
- Típico de um feriado – Eu respondi sorrindo.
- Vou tomar um banho, você vem junto? – Passou as mãos pelo meu quadril, enquanto eu guardava o vidro de tomate no armário acima da minha cabeça.
- Não...preciso terminar de guardar as compras. E depois disso vou reformular uma das histórias e mandar pra Beth.
[Beth é a minha atual editora. Tenho um pequeno contrato com uma editora medíocre que ganha 70% dos livros que eu publico. Mas, aparentemente, isso é o suficiente pra me pagar minhas contas, juntamente com o salário que recebo na livraria onde trabalho seis vezes na semana].
- Tudo bem, gatinha – Ele não insistiu, e se afastou sorrindo.
O sorriso do Beto é ligeiramente carinhoso, mas muito malicioso.
Pelas minhas contas, estamos juntos há mais ou menos dois anos. Talvez dois anos e um mês....talvez um mês e meio.
Nos conhecemos quando viajei pra cidade natal de minha mãe, em Merseille.
Ele era um dos poucos brasileiros que encontrei na minha estadia lá por três meses. A viagem foi logo após eu e Renné termos terminado nosso breve namoro de seis meses.
Lembrei de tudo isso enquanto colocava o leite na geladeira. Gosto de pensar com a geladeira aberta, não me pergunte exatamente o por quê.
Fui seguindo em direção ao nosso quarto, tirei meu tênis rapidamente e deitei na cama. Escutei o celular de Beto vibrar mais de uma vez.
Sei que não deveria, mas mesmo me segurando muito, não consegui conter minha curiosidade e peguei o celular.
Quando tentei me controlar já era tarde. Senti todas as minhas veias pulsando bem forte, e o meu rosto ficando rosado de nervosismo. Lia e não conseguia crer que ele recebesse mensagens como aquelas.
Beto saiu do banheiro somente com uma toalha verde enrolada em sua cintura.
Secava os cabelos castanhos bem escuros com uma outra toalha de rosto.
Sorriu ingenuamente, e me fitou. Eu estava séria, olhando pra tv sem sequer notá-lo.
- Hey, o que ta vendo de bom? – Ele perguntou, parecendo interessado.
- Canal de compras – Eu respondi, seca, ainda sem olhá-lo.
- Desde quando você se interessa por isso? – Ele riu.
- O que são essas mensagens no seu celular?– Eu perguntei, ainda séria e sem fitá-lo, estendendo a mão para que ele pegasse o celular.
- O quê? – Ele pareceu confuso.
- Não me faça de boba, Alberto – Eu olhei séria pra ele, aumentando meu tom de voz.
- O que...mas, eu... – Ele tentava me responder enquanto lia as mensagens.
- Olha, eu não sou idiota, ta bem? Não vou ficar parada esperando que você me faça de uma! – Eu aumentava cada vez mais meu tom.
- Você não sabe o que ta dizendo, ela é só uma modelo... – Ele tentava se justificar, mas eu já não escutava nada.
- Então, ‘’gatinho gostoso’’, você vai querer ‘’repetir a dose da semana passada’’?
- Espera, eu vou explicar... – Ele não sabia o que me dizer, e isso me deixou ainda mais irritada.
Levantei da cama e comecei a calçar meu tênis. Ele passou o tempo todo me assistindo amarrar os cadarços sem olhá-lo.
- Espera, vamos conversa... – Ele insistia, mesmo sabendo que seria inútil.
Passei pela sala e peguei minha bolsa. Antes que eu pudesse abrir a porta ele segurou meu braço com força.
- Aonde você vai? – Ele perguntou, exaltado.
- Vou sair daqui! – Eu gritei.
- Sair? Vai pra onde? Essa é a sua casa. Se alguém tem que sair, que seja eu! – Ele me soltou e foi caminhando em direção ao quarto.
- Então espero que não esteja mais aqui quando eu voltar! – Eu continuava com a voz alterada.
- Ok, não quero mais saber também! – Pude ouvir ele gritar.
- Sai da minha casa e vai com aquela piranha! Isso, sai da minha casa e da minha vida! Você não passa de um safado mentiroso! – Eu gritei, antes de bater a porta e ir embora.