sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O porteiro não me anunciou. Na verdade, ele nunca me anuncia. Passei direto pelo hall do edifício e segui até o elevador. Minha semiclaustrofobia não se manifestou como normalmente ocorreria em situações como essa.
Entrei sem bater. Como de costume, ele não havia trancado a porta.
Me deparei com barulhos estranhos vindos da cozinha, e nada mais eram que os dois gatos de Renné (Zé, e Tina) farreando num pequeno monte de ração espalhado ali.
Joguei minha bolsa na cadeira da sala de jantar, e cai no sofá. Eu estava completamente só.

Escutei barulhos de chave algumas horas mais tarde. A porta se abrindo e fechando em seguida, lentamente.
Estava absolutamente exausta e não consegui abrir os meus olhos completamente para ver quem era.
Renné se ajoelhou ao lado do sofá em que eu estava, e começou a me fitar sorrindo.

- Que surpresa, bebê.
- Pois é, eu peguei no sono – Respondi com a voz fraca e sonolenta.

Me chamar de bebê poderia significar apenas duas coisas: ou ele estava absurdamente feliz por me ver, especialmente por estar carente de mim e com isso não ter que necessariamente me procurar; ou sua ‘’pseudo-relação’’ com Jorge estava perfeitamente estável.

- Tudo bem. Você comeu? Tem frios na geladeira – Ele disse enquanto se levantava e ia em direção à cozinha.
- Não – Respondi levantando rapidamente, e dando assim condições para que minha tontura se manifestasse.

Ele pegou uma xícara de chá gelado com sabor de pêssego e despejou um tanto de wisky.

- O que houve? – Perguntou enquanto se sentava ao meu lado e golava um pouco da bebida.
- Eu e o Beto brigamos. Acho que terminamos.
- Acha? – Perguntou ele, com um sorriso levemente irônico.
- É porque ainda não tenho certeza. A última coisa que eu disse à ele antes de ir embora foi que ele não passava de um safado mentiroso – Eu respondi, tentando me recordar mais claramente.

Renné levantou uma das sombrancelhas, e me estendeu a mão com a xícara de chá e wisky.

- Me conte desde o início – Ele me pediu, cruzando os braços e mudando suas feições em expressões sérias.
- Acho que ele tem um caso - Eu dei um gole demorado.
- Um caso? – Perguntou ele, confuso.

Renné sabia o quão Beto era apaixonado por mim, apesar de nossas inúmeras diferenças. Era um rapaz ciumento e ligeiramente inseguro, apesar de ser realmente bonito e trabalhar como fotógrafo.

- É, acho que ele tem um caso com uma das modelos. Uma tal de Rebeca – Eu expliquei – Vi algumas mensagens chegarem no celular dele, enquanto ele estava no banho.
- Típica curiosidade feminina – Disse Renné em tom de brincadeira.
- Infelizmente.
- Você perguntou a ele? Ou simplesmente deu um pití e descarregou tudo nas costas do coitado? – Ele me perguntou, sorrindo.
- Ele não soube ao certo me explicar! – Comecei a mudar meu tom, especialmente porque senti que Renné o estava defendendo.

Senti meu celular vibrar no bolso do lado direito da minha calça. Me inclinei para o lado e o peguei com a mãe que estava livre da xícara.

- É ele, me mandou uma mensagem – Eu disse, desanimada – Ele quer que eu vá hoje no estúdio. Pede pra que nós conversemos, mas eu não quero, pelo menos não agora.
- Entendo... – Renné já não sabia o que devia me dizer – Quer sair hoje à noite? Vamos no bar, jogar uma sinuca, sei lá...
- Não sei se tem clima pra mim.
- Ah vá, eu sei que você precisa espairecer um pouquinho – Ele insistiu, sorrindo.

Odeio quando ele usa o sorriso como arma.

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