sábado, 8 de outubro de 2011

- Qual desses você prefere? Violeta ou turquesa?
Desviei meus olhos do livro que tinha em mãos e o fitei rapidamente.
- Turquesa. – Eu respondi serena, enquanto voltava a ler meu livro.

Quando é que eu poderia imaginar minha vida assim?
Aqui estou eu, sentada, vestida apenas com calcinha e uma camiseta ridiculamente grande que ele me emprestou pra que eu não continuasse usando as roupas molhadas pela chuva que caiu há meia-hora atrás.
Às vezes, quando ele pensa que não estou olhando, eu coloco o livro na frente do rosto e o analiso de longe.
Ele, que foi meu primeiro amor ''de verdade'', o cara mais misterioso que já pude conhecer em todos os meus breves e medíocres vinte e um anos. Enquanto o vejo passar com cuidado o delineador pelas pálpebras dos olhos, me recordo das inúmeras vezes em que nos beijamos e nos agarramos, numa vontade estranha de sermos um do outro.
Agora, ele era só o meu melhor amigo. Ex-namorado e melhor amigo; trabalhava às noites de quinta e sábado como drag queen e eu o ajudava a escolher a cor do colãn que usaria por baixo da saia cintilante.

- Se a chuva não passar, você pode dormir aqui.
- Mas, e o Jorge? Vocês não virão pra cá hoje depois do seu expediente? – Eu perguntei, despreocupada, sem nem ao menos olhá-lo.

[Jorge: Renné o conheceu no bar em que atualmente trabalha. Jorge era o tipo de rapaz que Renné sempre admirou e que sempre o instigou. O típico heterossexual que esconde uma pontinha de homossexualidade e leva a situação do jeito mais divertido possível].

- Não, hoje vamos para a casa dele. Me chamou pra ouvir umas composições novas que ele fez na última semana.

Composições novas. Renné não aprendeu que não precisa mentir pra mim sobre o que realmente vai acontecer hoje de madrugada. Ele insiste em ter vergonha de me contar coisas sobre eles dois, mas eu sei que hoje vai acontecer qualquer sacanagem que seja (não que isso implique necessariamente em sexo).

- Sei... – Respondi, e ele percebeu meu tom irônico.
- Eu fiz compras ontem, pode jantar algum congelado se quiser. O forno voltou a funcionar – Ele disse, se gabando e querendo parecer um pouco mais responsável.

Na verdade, Renné não era nada organizado. Era o tipo de cara que adora cozinhar, mas odeia lavar a louça. Morava sozinho desde seus 17 anos. O apartamento foi um legado da própria mãe, que se divorciou do pai e foi morar no Sul com a irmã e a sobrinha.
Depositou dinheiro na conta de Renné até ele fazer 19 anos e conseguir seu primeiro emprego.

- Não, obrigada. O Beto vem me buscar mais tarde – Eu respondi em tom de agradecimento.
- Se resolveram? – Ele me perguntou enquanto colocava um de seus brincos.
- A gente sempre se resolve. Mas, é que...

… o celular começou a tocar a música preferida de Renné.

- Ok, sim, já estou saindo – Respondeu ele ao celular enquanto colocava o outro sapato de salto.

- Sophie, meu bem, depois você me conta. Já estou atrasado.
- Tudo bem - Eu dei de ombros.

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